18/01/2008
Mi(ni)stérios
Na Argélia existem o Ministério dos Recursos Hídricos e o Ministério dos Assuntos Religiosos. Por motivos opostos, nenhum deles deve ter tarefa fácil.
07/01/2008
Coup d'état
A não ser, claro, que pertencessem à comitiva de figuras de estado que se deslocava, para uma solene cerimónia, às instalações de uma fábrica daquele concelho onde iria começar a ser produzida a viatura blindada sucessora da famosa Chaimite. Tínhamos sido avisados com antecedência de que alguns ministros, incluindo o Primeiro, passariam pela obra: deveríamos deixar passar os dispendiosos carros pretos de vidros fumados com altas patentes militares fardadas ou senhores de fato e gravata lá dentro. Por isso, as pessoas que não iam fardadas ou de fato nem conduziam dispendiosos carros pretos, vendo os carros da comitiva a virar à esquerda no cruzamento, coisa que lhes estava vedada, indignavam-se e barafustavam connosco porque, na sua opinião, o colete e capacete que usávamos nos tornavam responsáveis. Frases como “Isto só neste país” e “Estamos mesmo no terceiro mundo”, devidamente coloridas com insultos e palavrões, foram o prato do dia. Foi sem dúvida o dia em que mais nomes me chamaram, e eu tenho uma data de alcunhas.
Tamanrasset estava impossível no dia em que Abdelaziz Bouteflika, o presidente da Argélia, a veio visitar. A avenida que recebe quem entra na cidade vindo do sul estava barrada pela polícia, que indicava a única alternativa possível de circulação: virar à direita e entrar num beco de terra batida. Foi o que tive que fazer quando regressava da obra rumo ao estaleiro de Tamanrasset, percurso que obriga a atravessar completamente a cidade. O beco curvava à esquerda e conduzia novamente a uma rua alcatroada, que estava também fechada por polícias. As luvas brancas dos agentes apontaram-me o caminho a seguir, que era igualmente em terra batida: um beco que seguia em frente no outro lado da rua. Esta cena repetiu-se várias vezes.
Em Tamanrasset, apenas as artérias principais estão alcatroadas, e é por essas que costumamos andar. As ruas secundárias são todas muito parecidas: têm piso de terra, são ladeadas por paredes castanhas e cinzentas sem pintura e levam apenas a bairros residenciais que conheço mal mas que se ligam sempre entre si. Ao ser obrigado a enveredar pelos becos, depressa me perdi. Sempre que encontrava uma rua pavimentada, era obrigado a sair pela polícia, que tinha invadido a cidade por completo. Quando me fartei de procurar caminhos possíveis, comecei a perguntar aos polícias por onde devia ir para chegar ao sítio que queria. Nenhum dos que abordei me soube responder, porque eram todos de outras cidades e era a primeira vez que vinham a Tamanrasset. Em “missão”, diziam, usando o termo argelino que designa a deslocação para outra cidade em trabalho.
Tive mesmo de sair da cidade e circundá-la por fora, coisa que o terreno que rodeia Tamanrasset permite por ser plano e maioritariamente de areia e terra. Demorei uma hora para chegar de uma ponta à outra da cidade, o que normalmente se faz em cinco minutos. A cidade tinha parado: a maioria das lojas estava fechada e o trânsito não existia. As ruas não estavam desertas porque alguns cidadãos tinham ido ver o presidente a fazer as suas visitas e inaugurações, mas a maior parte das pessoas que se viam na rua era mesmo constituída pela força policial. O presidente esteve em vários pontos da cidade e inaugurou as obras de maior destaque, que ainda não estavam acabadas. Omar, o engenheiro, explicou-me mais tarde que as obras na Argélia são inauguradas várias vezes antes de estarem concluídas por um ministro – ou presidente, neste caso – de cada vez. Enquanto me contava isto, sorria e abanava a cabeça em desaprovação.
Lembrei-me várias vezes daquele dia na obra da Via Rápida do Barreiro em que era eu a informar dos cortes de trânsito e a deixar passar as figuras de estado. O Primeiro-Ministro nunca chegou a aparecer, mas entretanto já se produziu e apresentou ao público o Pandur II, o novo carro blindado de fabrico português.
Por norma, desde que conheci a Argélia e o eixo Tamanrasset-Niger, não gosto que digam que Portugal é um país do terceiro mundo, nem permito que o façam à minha frente sem um comentário de resposta. Mas a realidade é que de vez em quando encontro parecenças, sobretudo no que diz respeito à noção desfocada que os governos destes países têm do poder. Contudo, e por saber que no nosso país muito se faz de bom apesar disso, Portugal não deixa de ser, para mim, um paraíso. “O paraíso triste”, como lhe chamou Saint-Exupéry, e eu estou inclinado a concordar.
19/12/2007
Estes não são os carros de Gary Numan
No caminho que separa Tamanrasset da fronteira há imensos esqueletos de carros abandonados. O número de carcaças aumenta à medida que nos aproximamos de In-Guezzam, talvez por o percurso ser mais exigente ou por ser mais difícil de conseguir a assistência mecânica das oficinas de Tamanrasset. Alguns ainda exibem a pintura e permitem distinguir de que carro se trata, mas a maior parte está ferrugenta, amolgada e para lá de qualquer identificação. Alguns foram carros de habitantes locais que a certa altura se cansaram de vez, outros foram veículos de turistas cujas viagens correram mal e uma parte – carcaças de camiões – foi de serviços de transporte vencidos pelo deserto. A posição em que estão é, em alguns casos, reveladora do que lhes aconteceu: alguns carros estão virados ao contrário e outros estampados em pedras. Existe até um cemitério destas carcaças, a alguns quilómetros de In-Guezzam, para norte.
Coisas normais na região que se tornaram míticas. Ao fim de alguns tempos a conduzir nas pistas, apercebemo-nos de que a estrada já existe há muito tempo, não está é nivelada nem alcatroada. Não sei é se, depois de a estrada estar feita, os todo-o-terreno da região vão ficar contentes: estão habituados à exclusividade das pistas e ninguém gosta de perder um monopólio.
Depois de escavarem a areia em redor das rodas da frente, os serventes da obra começaram a empurrar o primeiro automóvel da caravana de três, que estava atascado na areia e não conseguia sair do sítio só com a força dos outros condutores. Dei-lhes uma mão: eu próprio já fui empurrado também. Ao fim de alguns sacões, o carro saiu do sítio. Os condutores agradeceram e continuaram para o sul, onde alguém lhes havia de pagar pela viagem.
17/12/2007
Moula-moula
Os camiões-cisterna que transportam água para a obra são verdadeiros destroços de guerra. Ivecos, Berliets, MANs com trinta anos ou mais, decanos das pistas, enchem o tanque de água num poço situado a trinta quilómetros de Tamanrasset e esvaziam-no na obra, a cinquenta quilómetros desse poço. Com o avanço da obra, esta distância tende a aumentar muito, o que levanta algumas questões sobre o desempenho destes veículos no futuro. Quase todos se deslocam a passo de caracol, muitos apresentam sinais de velhice e ferrugem irreparáveis e alguns demoram vários minutos até conseguir engatar a marcha-atrás. Uma boa parte deles tem furos na cisterna e deixam rastos de água por onde passam: os furos são pequenos o suficiente para a água chegar praticamente toda ao destino mas grandes o suficiente para se tornarem caricatos. É vulgar avariarem, condenando os motoristas a passarem noites no deserto. Porém, estes já estão habituados a esses contratempos e fazem-se acompanhar de água e comida, que penduram no exterior do camião. A água viaja em odres – peles de cabritos há muito digeridos – suspensos na lateral da viatura para conservar a frescura, e a comida consiste, em parte, em pedaços de carne pendurados na parte da frente da cisterna. É, eufemisticamente, prático.
Os motoristas convivem com as avarias com a naturalidade com que as pessoas de vida dura encaram as dificuldades. Conhecem as manias ao camião e tentam reparar a avaria com as ferramentas que trazem. Se não conseguirem, mandam o companheiro pedir boleia aos carros que passam e ir à cidade buscar ajuda: é por isso que viajam sempre acompanhados de um ou mais motoristas.
A água, muito necessária aos trabalhos de terraplenagem, é um dos problemas mais graves com que lidamos. E qualquer um de nós cedo se apercebeu de que não podíamos contar com aquilo a que estávamos habituados em Portugal. Em Tamanrasset não é fácil arranjar camiões decentes, mas há já alguns meses que trabalhamos com estes e, mal ou bem, a água lá vai chegando à obra. Às vezes mais mal que bem, mas não há problema: também nós encaramos com naturalidade – aquela com que às vezes se devem encarar as dificuldades – o facto de sermos servidos por estes camiões. Têm décadas de pistas e deserto no lombo, já viveram mais vidas e sofreram mais mortes do que qualquer pessoa e, se virmos bem, nem toda a gente tem o privilégio de trabalhar com verdadeiras relíquias viajantes que, de tão selvagens, até requerem dois ou três homens para as domar.
O pássaro preto aproxima-se de mim aos saltos. Pára a uns três metros de mim e fica a olhar-me de lado. Fico quieto a ver o que ele faz, e o animal aproxima-se cautelosamente dos meus pés para beber a água de umas pequenas poças criadas pelas fugas do tanque de um camião.
- Olá passarito, estás bom?
A ave, ao beberricar saltitando, parecia concordar que os camiões não são, de facto, grande pistola.
10/12/2007
In-Guezzam
A zona onde há alguma água e verdura, uma rua principal com candeeiros e terra ladeada por casas castanhas que se espraiam em seu redor, lojas de portas abertas a oferecer pão, ferramentas e roupa – a escuridão dos seus interiores sugere-as como frescas, mais pela opressão do calor cá fora do que propriamente pelos seus atributos térmicos –, serviços simples como correios, postos de polícia e bombas de combustível, doze meses de calor por ano e areia por todo o lado – mesmo no vento –, é In-Guezzam. Na rua principal agrupam-se polícias de fronteira, miúdos saídos da escola e automóveis que esperam à porta das bombas que chegue combustível do norte. À volta da localidade pastam cabras guardadas por tuaregues preguiçosos, o que me leva a perguntar ao Sidi Mohamed – que faz parte da nossa pequena comitiva de estudo da subempreitada que ali vamos fazer – o que é que elas comem. Diz ele que este gado é criado do outro lado da fronteira, onde há vegetação, e só está aqui para ser vendido. Dezenas de cabeças.
À hora de almoço, já a comitiva de estudo tinha acabado o estudo, pelo que restava apenas a comitiva. Estacionámos às portas da vila e instalámo-nos num tapete estendido sobre a areia. O Sidi Mohamed informou-nos que a refeição ficaria por sua conta, mandou alguém à cidade chamar um cozinheiro e afastou-se para ir negociar um cabrito com os tuaregues que pastoreavam por ali. É Dezembro mas está calor: desapertam-se camisas, abanam-se t-shirts e viram-se caras na direcção da brisa. Para trás de nós está a vila, para a nossa frente está o areal interminável do qual emergem cabeços arredondados de pedra escura. Do rádio das carrinhas sai música que, misturada com o calor e a brisa, lança a languidez de um verão na atmosfera.
Quando o Sidi Mohamed regressa ao pé de nós com o cabrito, já o cozinheiro está à espera. Numa questão de minutos, o cabrito é degolado e desmanchado na areia. É grelhado num pequeno braseiro que foi ardendo entretanto e ao fim de uma ou duas horas é-nos oferecido numa terrina acompanhado de pimentos e cebola. Até gosto de cabrito, mas neste não toquei. Comi uns pedaços de frango – esse não morrera à minha frente – que tínhamos trazido de Tamanrasset.
Antes de nos fazermos ao caminho ainda ficámos ali um bocado. Parecia mesmo verão. Estávamos numa praia gigante, que tinha de sobra em areia o que lhe faltava em mar. Observávamos os tuaregues que entretanto carregavam o resto do gado caprino para um camião. Aproxima-se uma grande festa islâmica, em que a tradição manda comprar um cabrito e comê-lo com a família: vão conseguir vender todas as cabeças. Quando partimos, ao início da tarde, In-Guezzam está sossegada atrás de nós. Não há grande trânsito nem se vê muita gente na rua. Se calhar, penso eu, quase toda a actividade que traz vida a esta vila é feita fora dela. No Niger e em Tamanrasset. É que, apesar de ser um pardieiro árido e desolador, In-Guezzam tem uma pequena mas importante imagem de limite quimérico entre um nada e um tudo existentes em ambos os lados, ou não fosse uma localidade fronteiriça: para nós e para o cabrito é o fim da linha, mas para muita gente é apenas o início. Aliás: o meio.
Passados vários dias, durante uma viagem para a obra, pergunto ao Sidi Mohamed o que quer dizer ‘In-Guezzam’. No seu francês de fraca qualidade, responde-me que o nome da localidade se refere ao facto de, há muito tempo atrás, se degolarem muitas pessoas naquela zona. Passa-me pela mente um comentário sobre a degolação de caprinos que não consigo travar antes de me sair da boca.
08/12/2007
As flores lilases
Na televisão estava a passar o festival Eurovisão Júnior, no qual crianças de vários países interpretavam canções acompanhadas de coreografias, apresentadas por um homem louro nos seus trintas vestido com um blazer às flores em tons lilases. Os portugueses assistiam à retrospectiva das actuações dos vários países que antecedia a votação final. Crianças sorridentes de trajes e penteados extravagantes cantavam, dançavam, saltavam, aplaudiam e atribuíam pontos numa amálgama de luz e cor que, segundo era propagandeado de tempos a tempos, era proporcionada em parceria com a Unicef numa iniciativa de angariar fundos para combater a miséria nos países do terceiro mundo. De facto, a imagem da caixinha mágica por vezes dividia-se ao meio para exibir, numa das metades, o festival de música e, na outra, imagens de fome e crianças magras oriundas de um país qualquer que ninguém especificou. Nenhum locutor ou voz-off comentava as imagens de miséria: simplesmente eram lá colocadas como parte de uma edição de imagem definida por um realizador invisível, talvez numa tentativa de sublinhar a mensagem de caridade. Passados alguns segundos, o monopólio do ecrã era devolvido ao apresentador florido e às saltitantes crianças europeias.
Eu estava na sala a assistir ao festival e interrogava-me se mais alguém se apercebia do que se estava a passar. Sempre fui céptico em relação a grandes festas de angariação de fundos para uma iniciativa caritativa qualquer, não por acreditar que o dinheiro não chegue ao destino para que é pedido, mas sim por considerar que a caridade não deve ser feita assim. E as vestimentas e cabelos das crianças pareciam dar-me razão a cada saltinho.
Talvez seja por pensar assim que fiquei surpreendido ao não ficar minimamente aborrecido quando a Bielorússia ganhou e Portugal ficou no fundo da tabela. Nada aborrecido mesmo. Aliás, deve ser tudo impressão minha: de certeza que o dinheiro será entregue, de certeza que a iniciativa terá bons frutos, de certeza que a canção da Bielorússia era mesmo boa, de certeza que as crianças europeias serão felicitadas pela sua boa prestação enquanto as crianças africanas comem o arroz sorrindo, de certeza que toda a gente ficará contente com o resultado, de certeza que o realizador invisível é um génio que nos faz um favor quando nos exibe a miséria durante poucos segundos e no resto do tempo mostra luzes, cores, crianças sorridentes, apresentadores animados e flores lilases.
30/11/2007
Sidi Mohamed
Por isso é que, ao olhar para as riscas de todas as cores no bazane do Sidi Mohamed que tanto me alegram – e dando um sentido concreto a mais um lugar-comum –, percebo finalmente onde está o pote de ouro no fim do arco-íris.
Chicotadas psicológicas
- Não sabias? Já faz um mês... – observou o topógrafo.
- Um mês? Faz é dois meses! – corrigiu o director.
- E o Jorge Costa também saiu do Braga há para aí uma semana – voltou o topógrafo.
- Nã, três semanas! – disse o director.
- Eh pá, hoje não acerto uma...
- É o que dá, estar enfiado aqui no deserto... - observou o do cilindro.
E viraram-se novamente todos para a televisão.
29/11/2007
Dez
O velhote percorria a sua obra e, entre as instruções que ia dando aos seus trabalhadores, contava-me por alto a história da sua vida. É um homem simpático que se apresenta como Bob, diminutivo de Boubakeur. Apesar de a sua aparência o denunciar como argelino, a sua postura confere-lhe pinta de europeu: estudou na Argélia, doutorou-se em Londres, viajou um bocado por todo o mundo, criou família em Oran e uma pequena empresa que o trouxe até Tamanrasset, até nós. Caminha ao meu lado, com os seus óculos escuros e o seu lenço à volta do pescoço, e fuma em curtos bafos silenciosos. Apercebo-me de que o Bob diz aos trabalhadores para se esmerarem e se despacharem por minha causa: são nossos subempreiteiros. Fala-lhes em árabe e, para o fazer ver que eu o percebo, pergunto-lhe porque é que ele lhes está a dizer isso. Revela-me que usa o facto de eu estar ali para os fazer levantar o rabo do selim. Diz-me ainda que nunca se deve dizer que o trabalho de um subalterno é bom, mesmo que o seja.
- É um truque de relações humanas - diz ele - Desta maneira, o trabalhador não se sente indispensável e tenta sempre fazer melhor.
Replico:
- Mas, quando trabalhas para outra pessoa, que mal há em elogiarem o teu trabalho de vez em quando?
- Vou contar-te uma coisa que um professor de matemática uma vez me disse. Quando lhe perguntaram porque não dava nota vinte a ninguém, ele respondeu: "Vinte é para o bom Deus, dezanove é para mim, que sou professor, e dezoito é para o Bob."
Percebi a lição. E o velho pôs um grande sorriso antes de dizer que era barra a matemática.
- É um truque de relações humanas - diz ele - Desta maneira, o trabalhador não se sente indispensável e tenta sempre fazer melhor.
Replico:
- Mas, quando trabalhas para outra pessoa, que mal há em elogiarem o teu trabalho de vez em quando?
- Vou contar-te uma coisa que um professor de matemática uma vez me disse. Quando lhe perguntaram porque não dava nota vinte a ninguém, ele respondeu: "Vinte é para o bom Deus, dezanove é para mim, que sou professor, e dezoito é para o Bob."
Percebi a lição. E o velho pôs um grande sorriso antes de dizer que era barra a matemática.
10/11/2007
O mercado
Toda a gente sabe que, quando se compra uma coisa num mercado, está-se na realidade a comprar duas: o artigo em si e o seu cheiro. O aroma das coisas é sempre mais intenso nesses sítios e povoa toda a atmosfera e envolve as lojas, quiosques e balcões, pelo que o dinheiro que se paga pelo que quer que seja que se compre, paga também o cheiro.
O mercado de Tamanrasset não é excepção: num grande terreno de terra batida e lancis mal amanhados, as lojas foram feitas em tendas que formam pequenas ruas e quarteirões de pano. Vende-se de tudo, e mesmo os artigos mais correntes que não dispõem da classificação eufemística de 'artesanato' são de qualidade duvidosa: perfumes, tapetes, tabaco, isqueiros, roupa, calçado, relógios, óculos de sol, brinquedos, produtos de higiene, alimentos. A falsificação de marcas é tanta e tão evidente que leva o visitante a interrogar-se se haverá alguma coisa genuína ali. A resposta depressa lhe chega ao nariz: o aroma de todo o comércio e mesmo das centenas de pessoas que falam alto, cozinham nas ruas e abandonam a loja sem risco de roubos mistura-se no ar e vai conduzindo o freguês por entre as lojas de paredes de tecido, para descobrir que, afinal, não existem apenas perfumes mas sim mil perfumes, não existem apenas tapetes mas sim mil tapetes, não existem apenas relógios, óculos, pulseiras, mas sim mil jóias que, não sendo de ouro ou pedras preciosas (abre-te Sésamo), possuem o mesmo brilho de um tesouro. Semeado em bancadas de madeira e tapetes numa esperança de que amadureçam na vontade de um comprador e ao alcance de um punhado de dinares.
Por isso, quando alguém vai comprar algo tão simples como um maço de cigarros, mesmo que o tabaco seja fracote, faz sempre bom negócio. O preço também nunca é elevado por aí além e existe sempre uma certeza de que os aromas, esses, não carecem de marca registada.
05/11/2007
Wrong kind of blues
Os pretos do Niger e do Mali que vão buscar pedras às montanhas para construírem muros de gabiões são mão-de-obra barata para as empresas argelinas. Alguns nem recebem dinheiro: trabalham apenas para comer. Vivem em tendas improvisadas no meio do deserto por toda a duração da sua obra e instalam-se o mais confortavelmente possível. Fabricam cabanas com tábuas e plástico para dormirem, halteres com varões de aço e cimento para se exercitarem, e até guitarras com paus, latas e arames. Alguns, enquanto atiram pedras de um lado para o outro, cantam músicas melancólicas com letras incompreensíveis. As suas músicas, em particular, são o que mais me emociona. Sabe-se lá se são alegres ou tristes, de onde vêm, o que querem dizer, quem as compôs. Quando não há vento e o deserto está em silêncio, as suas vozes enchem o ar, o sítio ganha a banda sonora que se lhe adequa e surge uma atmosfera confortável, como se estar aqui começasse a fazer sentido: da mesma forma que nos filmes a música complementa a acção do ecrã.
É por isso que se ao passar perto dos muros e eles estiverem a cantar, aproximo-me muito devagar para que não reparem que cheguei.
Ao subir para a carrinha para ir fazer um trabalho a um quilómetro dali, o Mustapha, um servente preguiçoso, aponta para o rádio e pede-me entusiasmado:
- Ali Farka, Ali Farka!
Porque já tinha andado antes na carrinha comigo.
26/10/2007
O Dom Afonso Henriques
No dia a seguir a ter chegado de férias, uma sexta-feira, houve jogo de futebol entre portugueses e argelinos. Oito portugueses contra doze argelinos. Muitos portugueses não pegavam numa bola há muito tempo. Eu próprio já não jogava futebol há anos. Perdemos, mas não faz mal: conforta-me saber que a mouralhada já levou porrada nossa que chegue.
O Portugal (Argélia entre parêntesis durante um bocado)
Quando aterrei em Argel às tantas da madrugada e caía uma chuva miudinha e fria enquanto eu esperava que me viessem buscar, não fazia ideia que, ao chegar a Lisboa no dia seguinte me ia sentir quentinho por dentro. Não devido ao sol, mas ao aconchego e à pressa de viver uma semana intensamente. Não imaginava o prazer que ia sentir ao ter dificuldade em vencer o trânsito da rotunda do relógio, ao acelerar na autoestrada rumo a casa, ao beijar a família, ao abraçar o cão, ao almoçar num restaurante, ao abraçar os amigos, ao tomar um café no café de sempre, ao sair à noite, ao beber uns copos, ao combinar tanta coisa com tanta gente, ao ouvir reprimendas das pessoas com quem não tive tempo de estar, ao contar histórias, ao ouvir histórias, ao dormir num quarto a sério, ao comer comida a sério, ao comer comida de plástico, ao sentir-me confortável finalmente, ao pensar que afinal as saudades eram muitas, ao pensar que afinal tinha mais saudades ainda do que pensava, ao pensar que as saudades não são mais que dias de chuva que fazem dar valor aos dias de sol, ao pensar que a chuva miudinha e fria com que Argel me recebeu às tantas da madrugada não era mais do que um abraço de boas-vindas, ao pensar que afinal de contas o deserto não é assim tão duro, ao lembrar-me - que diabo - que o deserto não custa assim tanto, ao verificar que se eu não fosse tão distraído assim tinha reparado há uns meses atrás no bom presságio que era os dinossauros coloridos do relógio da minha cozinha estarem a sorrir para mim.
14/10/2007
O jejum
Nos meus aniversários, costumo receber uma carta de parabéns de uma instituição para a qual dava sangue quando era estudante. Nesta, desejam com eufemismos comerciais que o meu aniversário se repita por muitos anos para poder continuar a dar sangue. Ou seja, convém que o gajo que dá sangue viva muito tempo para garantir um certo stock: acho alguma piada ao facto de mo dizerem frontalmente logo no meu dia de anos, como se não tivessem vergonha de admitir. É reconfortantemente sincero.
O fim do Ramadão é assinalado por uma festa chamada Aid El-Fitr, cujo nome significa "fim do jejum". É um feriado tão importante para os islâmicos como o Natal é para os cristãos.
Os festejos começaram às oito da manhã com uma reza ao ar livre que juntou imensa gente numa oued que atravessa o centro da cidade. Imensas pessoas fizeram as suas orações em conjunto nesse local, virados para Meca. Depois da reza, veio a hora da refeição que iria vingar o mês de jejum: os crentes comeram imenso, juntaram os entes queridos e ofereceram prendas uns aos outros. As ruas de Tamanrasset encheram-se de vida: as pessoas vestiam roupas melhores e mais coloridas, percorriam as ruas em pequenos grupos alegres e levavam doces e garrafas na mão. A cidade ficou animada até altas horas da noite. Ninguém trabalhou no dia seguinte devido ao feriado e, em alguns casos, a indigestões nos estômagos desabituados a grandes farturas.
A propósito dos parabéns dos senhores do sangue, lembrei-me que, certa noite, acordei com o toque de uma mensagem de texto no meu telemóvel com número argelino. A Mobilis, operadora de telecomunicações da Argélia, desejava-me um feliz Aid El-Fitr. Já foi há algum tempo atrás, mas lembrei-me disso porque enquanto escrevia este texto a nossa ligação à internet da Mobilis foi abaixo. Podia dizer que as felicitações são secundárias relativamente ao serviço pago. Mas o facto é que, quando recebi a mensagem naquela noite, eram quase horas de acordar e já estava, de facto, com um ratito no estômago.
O fim do Ramadão é assinalado por uma festa chamada Aid El-Fitr, cujo nome significa "fim do jejum". É um feriado tão importante para os islâmicos como o Natal é para os cristãos.
Os festejos começaram às oito da manhã com uma reza ao ar livre que juntou imensa gente numa oued que atravessa o centro da cidade. Imensas pessoas fizeram as suas orações em conjunto nesse local, virados para Meca. Depois da reza, veio a hora da refeição que iria vingar o mês de jejum: os crentes comeram imenso, juntaram os entes queridos e ofereceram prendas uns aos outros. As ruas de Tamanrasset encheram-se de vida: as pessoas vestiam roupas melhores e mais coloridas, percorriam as ruas em pequenos grupos alegres e levavam doces e garrafas na mão. A cidade ficou animada até altas horas da noite. Ninguém trabalhou no dia seguinte devido ao feriado e, em alguns casos, a indigestões nos estômagos desabituados a grandes farturas.
A propósito dos parabéns dos senhores do sangue, lembrei-me que, certa noite, acordei com o toque de uma mensagem de texto no meu telemóvel com número argelino. A Mobilis, operadora de telecomunicações da Argélia, desejava-me um feliz Aid El-Fitr. Já foi há algum tempo atrás, mas lembrei-me disso porque enquanto escrevia este texto a nossa ligação à internet da Mobilis foi abaixo. Podia dizer que as felicitações são secundárias relativamente ao serviço pago. Mas o facto é que, quando recebi a mensagem naquela noite, eram quase horas de acordar e já estava, de facto, com um ratito no estômago.
12/10/2007
Assekrem
- Não.
Porque sabia que nenhuma fotografia faria jus a uma aurora ou crepúsculo. E porque tencionava lá ir um dia.
A visita ao Assekrem foi combinada com alguns dias de antecedência, o que garantiu uma aderência e organização credíveis. Seria uma caravana de quatro carrinhas com vários portugueses e dois argelinos que trabalham connosco como motoristas de camião. Um deles foi guia turístico num emprego anterior e seria o nosso guia nesta viagem: ninguém sabe ao certo o seu nome, porque todos o tratam pelo apelido carinhoso de Bob Marley. Saímos do estaleiro e atravessámos a cidade, seguindo para leste. O Assekrem fica a oitenta quilómetros de Tamanrasset, o que não implicaria uma viagem longa se não fosse o estado do caminho até lá. Aliás, falar em caminho é um luxo: metade do percurso é sobre pistas de terra batida e a outra metade é sobre trilhos de pedra que põem qualquer pneu em pânico. Portanto, duas horas e meia para cada lado, fora o tempo investido em paragens para tirar fotografias.
A primeira paragem sugerida pelo Bob Marley foi no sopé de um monte com cerca de vinte metros de altura, no cimo do qual estava a ruína de uma guarita construída com pedra local nos tempos da ocupação francesa. As suas paredes interiores estavam cobertas de inscrições árabes gravadas na pedra que terão sido gravadas durante longos períodos de vigia, após um pequeno combate como celebração de vitória, ou por vândalos que sucederam à guerra. Dali, tem-se uma boa perspectiva da região circundante e nada mais, até se descer.
Perto dali, parámos no segundo ponto de interesse: um pequeno lago que se formou na base de várias escarpas verticais em pedra. 'Boas para fazer escalada', comentou-se. Água turva, nada de invulgar se não fosse a maior massa de água permanente que tínhamos visto cá até àquela altura. Seguimos viagem depois de algumas fotografias.
O percurso que encetámos a seguir, indicado pelo Bob Marley, deu-nos a certeza de estarmos a abandondar a paisagem típica de Tamanrasset para a substituir por uma de rocha. Por entre planaltos constituídos unicamente por pedras pequenas apenas desafiadas por oueds ocasionais e escarpas rochosas de agulhas vulcânicas, avançámos algumas dezenas de quilómetros na direcção das montanhas. Tínhamos a nítida sensação de estar sempre a subir apesar da monotonia da condução. Da condução, não do traçado: na paisagem de pedra surgiram dromedários, burros, pequenos indícios do Homem como placas que designavam sítios estranhos que ninguém no mundo sabe que existem e postes com pequenos cilindros em cima que ninguém no mundo sabe para que servem. E, à frente de tudo isto, umas flores vermelhas que encontravam o sol nos espaços entre as pedras. As flores também faziam a minha imaginação trabalhar e passavam a ter características místicas como efeitos medicinais incríveis, desabrochar apenas uma vez na vida para morrer logo depois ou simplesmente serem obra de um capricho da natureza que, segundo se lê na paisagem, ainda tem muito que fazer por aqui até esta região se tornar suportável.
A visita seguinte foi em mais uma massa de água acumulada por entre a rocha: desta vez, um riacho. Um curso de água que descia das montanhas engordava naquela zona há tempos infindos, a julgar pela forma lisa e arredondada das rochas e pela presença de peixes. Peixes no Saara guardados por um tuaregue solitário cujo trabalho é ser "o guarda das montanhas", como informou o Bob Marley. Vive numa cabana com um jipe branco estacionado em frente e mostra a zona aos turistas que o abordam. Depois da visita e das fotografias, continuámos a subir pelas montanhas.
A partir do riacho com os peixes, o caminho parecia-se com tudo menos um caminho. Os pneus rolavam sobre trilhos de pedra mais enterrada que a circundante, fazendo adivinhar um trilho e temer os furos. As carrinhas seguiam devagar, à velocidade do passo de uma pessoa. As formações vulcânicas que caracterizam a zona tornavam-se cada vez mais frequentes e assumiam formas cada vez mais invulgares. À nossa volta, ao perto e ao longe, viam-se as montanhas a perder de vista, já abaixo de nós.
Os últimos dez quilómetros são terríveis: demoraram meia hora a fazer. No fim do trilho encontra-se uma espécie de aldeia constituída por uma estalagem com alguns quartos e sala de refeições, uma base militar para os guardas da zona e um pequeno armazém com geradores de electricidade e painéis solares no telhado. O Assekrem fica mais acima ainda, a umas dezenas de metros que têm de se percorrer a pé. O trilho lá para cima vence um grande declive por troços em ziguezague. Alguns turistas franceses estavam já a subir quando lá chegámos, mas - à boa moda portuguesa - ainda tivemos tempo de lanchar antes de subir: sandes, panados, sumos e cerveja trazidos de Tamanrasset.
A palavra 'assekrem' significa, na língua regional dos tuaregues, 'fim do mundo'. Pelo caminho que tem de se fazer para lá chegar, talvez seja um nome apropriado, mas a paisagem parece mais o princípio de alguma coisa que talvez uns milhões de anos mais tarde se transforme - aí sim - no mundo. No cimo do trilho existe um planalto enorme que deixa ver as montanhas até onde a vista alcança. Cada forma estranha de cada pináculo é revelada e deixa de parecer bizarra para parecer apenas bonita, inserida num todo que agora se consegue perceber visto de cima. Nesse sítio, existe uma casinha minúscula e uma capela onde viveu o padre Charles de Foucauld - Père de Foucauld -, um boémio que se converteu ao espiritualismo e veio procurar sossego e meditação nas montanhas do Hoggar. Pregou uma palavra muito própria e elaborou um dicionário da língua local dos tuaregues até ser assassinado em 1916 à porta da sua cabana devido a divergências religiosas.
Após a visita à última parte da vida deste padre, dirigimo-nos para o extremo oesto do planalto, onde o sol já se preparava para desaparecer. A luz derradeira do dia era rosada e pousava na face das montanhas explicando cada reentrância e saliência com calma. Ao pôr-se depressa atrás dos últimos píncaros do horizonte, o rosa transformou-se em laranja e espelhou-se nas nuvens. Tudo à nossa volta incluindo as pedras, as montanhas, nós e até os turistas franceses ficou alaranjado de um lado e escuro do outro, de uma maneira em que os dois tons se fundiam para retirar a identidade a cada coisa e tornar tudo numa só: a luz. As nuvens tornaram-se cada vez mais alaranjadas até que começou a escurecer. No fim, as pedras voltaram a ser pedras, os turistas voltaram a ser turistas e os portugueses falaram em regressar a Tamanrasset porque não seria fácil fazer o caminho de regresso no escuro apesar do Bob Marley. Pudera: um pôr-do-sol majestoso como este rouba toda a luz da região durante várias semanas - não percebo os painéis solares - e ninguém me convencerá do contrário.
30/09/2007
Mil novecentos e troca o passo
Quando o Abduljabar, o técnico de laboratório argelino, foi à carrinha buscar o estudo das zonas de empréstimo ao longo do traçado, nunca pensei que se tratasse de um documento com quase trinta anos. Porém, não seria de esperar outra coisa, porque o próprio projecto da estrada tem a mesma idade. Estávamos em pleno deserto, numa zona vasta praticamente plana onde só se vêem montes castanhos ao longe separados da planície de areia por uma linha do horizonte azul, tremeluzente e aquática: miragens, da cor do céu. Como acontece vulgarmente, fazia um vento forte, que, para além de tornar complicado folhear as páginas do caderno antigo e descobrir nele a informação pretendida, fazia tremer o boné azul do Abduljabar.
O documento estava demasiado branco e bem conservado para pôr de parte a hipótese de ter sido fotocopiado em boa hora para evitar desintegração. O seu conteúdo, porém, revelava a sua antiguidade: cada zona de empréstimo era representada numa página por um esquema altamente dúbio constituído por uma linha recta (o traçado da estrada), um pequeno marco quilométrico estilizado, um desenho rudimentar das montanhas que se podiam ver naquela área e um polígono delimitador da zona de solo adequado para construir aterros, com a respectiva distância à estrada. No sítio onde estávamos, descobrir a localização exacta do polígono no terreno pareceu-nos uma tarefa quase impossível: o único ponto de referência credível era o marco. Mais impossível nos pareceu ainda quando o Abduljabar nos disse que os pontos do polígono estavam assinalados no terreno.
Lembro-me que, ao ouvir isto num francês gritado com força superior à do vento, olhei em volta para tentar perceber o que havíamos de fazer. A região pareceu-me ainda mais plana e ainda mais incaracterística. Só algumas pedras negras rasgavam a superfície arenosa e a monotonia da paisagem: assinalados como?
Ao seguirmos o técnico argelino, que tentava orientar-se pelo desenho e impedir o voo do boné e das páginas fotocopiadas (de certeza que fotocopiadas), apercebemo-nos de que ele procurava qualquer coisa nuns pequenos montes de areia e pedra, pouco visíveis à distância. Segundo ele, havia qualquer coisa ali que assinalava os pontos do polígono que tinha no esquema altamente dúbio do caderno. Fomos seguindo o Abduljabar à medida que ele se dirigia para os montinhos que detectava à distância para os sondar com uma pá.
Os montinhos não se distinguiam bem à distância devido à sua pequena dimensão. A areia e pequenas pedrinhas que os constituíam não destoavam do resto da paisagem. Alguns eram formações naturais, outros talvez feitos por alguém para criar pontos de referência, como é comum: por todo o percurso de Tamanrasset até In-Guezzam há montes de areia e pedras que assinalam o trajecto e mostram o caminho. Talvez devido a isso, eu estava céptico relativamente aos montes. Pelo menos até o Abduljabar, vencendo o vento no que diz respeito às páginas e ao boné, ter encontrado um papel sob uma pedra num destes montinhos.
Era um papel grosso, que parecia ter sido arrancado de uma embalagem de qualquer coisa à laia de improviso. Alguém tinha escrito nele a lápis, há quase trinta anos, que aquele montinho correspondia ao quarto ponto do polígono da décima quarta zona de empréstimo. Depressa pensei que aquele papel e aquela informação de grafite era, muito provavelmente, mais antiga do que eu. E tinha subsistido, perfeitamente legível, ao vento que rouba fotocópias e bonés durante todo esse tempo apenas com a ajuda de uma pedra. Surreal e mágico: resistiu mais impunemente aos anos do que eu e, certamente, do que quem o colocou ali. Como uma cápsula do tempo, só que sem cápsula.
Foi por isso que, antes de partirmos em busca dos restantes montinhos, reslovi tirar uma fotografia ao papel. Pedi a alguém para me segurar no papel e tuca. Achei curioso, interessante e bizarro e por isso tuca. Tuca porque assim, mesmo que o vento leve os bonés, as fotocópias (é tão certo que fotocópias) e os papelitos, terei a certeza de que estes tempos que passo aqui ainda estarão num sítio qualquer perto de mim (e se calhar também faço um esquema altamente dúbio para os conseguir encontrar) daqui a mais uns trinta anos.
A modorra e os soldados
O facto de serem nove da manhã não costuma intimidar muito o sol, porque a essa hora já sou obrigado a usar manga curta. O calorzinho agradável que se fazia sentir e a minha modorra matinal encostaram-me à parede da esquina e fizeram-me espreguiçar. A rua ainda não estava muito movimentada, mas também raramente o está. Passavam poucos veículos, o que não significa que o trânsito é seguro: Peugeots 504 e 505 a caírem de podres, carrinhas Toyota, jipes variados, táxis (mais Peugeots), motas, bicicletas e dromedários atropelam-se numa espécie de desafio para descobrir quem conduz pior. Diria que também é da modorra, porque apesar de o tráfego ser desordenado até o sol se pôr, neste sítio é fácil ter-se modorra o dia inteiro. Enfim, só neste dia é que me apercebi do quão curioso é haver às vezes tão poucos carros na rua e mesmo assim ser perigoso andar na estrada.
Mas dizia eu que Peugeots, Toyotas e assim. E também pessoas. Algumas a irem para o trabalho, outras, mais jovens, vestidas de soldado a entrarem num quartel próximo, outras, mais jovens ainda, a irem para a escola. Passa por mim um grupo de miúdos vestidos com batas brancas, como se fossem pequenos médicos de mochila às costas. As mulheres, com a cabeça tapada. Os tuaregues também. Às vezes, as pessoas que passam mais perto de mim cumprimentam-me. "Salaam Alaykum". Nenhuma destas pessoas corre para lado nenhum: percebo a minha ingenuidade em ter vindo dez minutos mais cedo e a sorte que tenho em ser tão ingénuo assim.
O sol bate numa das paredes dos edifícios, duas no máximo, e não me deixa ter certezas acerca da sua cor: avermelhado ou acastanhado? Seja como for, é a cor dominante nas casas de Tamanrasset, creio eu que para não destoar. Troco a esquina por uma árvore grande e amodorro-me junto ao tronco pintado de branco na base, como todos os outros troncos de árvores grandes.
Em suma: os Peugeots, Toyotas, soldados e médicos pequeninos que talvez curem doenças pequeninas também, todos dourados pelo sol e acastanhados pelos edifícios. É da luz, creio, e do calor também. É uma imagem calma e tranquila, graças à cor e às pessoas: ninguém tem pressa, como se toda a gente estivesse a esperar comigo pelo senhor que assina papéis. Como se toda a gente tivesse a modorra que eu tenho, os soldados, os táxis e os dromedários. Por isso, movido pela simples cortesia e grato por me fazerem companhia enquanto espero, cumprimento também toda a gente que passa por mim.
Há imensos militares em Tamanrasset. É uma cidade muito militarizada porque serve de base para a vigilância e protecção das fronteiras com o Niger e com o Mali, e de toda região sul em geral: uma área tão vasta de areia e pedra que torna estranho - e interrogo-me acerca disso - o facto de a farda dos soldados ser em tons de verde.
29/09/2007
A aguardente
Acho que me deu a vontade de escrever porque estava aqui na internet a falar para Portugal e para a vida que pus em pause (tuca) para vir para cá ganhar a vida e essas coisas que as pessoas crescidas fazem (agora já trabalho, sou crescido), e comecei a ouvir uma música que ouvia imenso quando trabalhava na margem sul do Tejo. Claro está que as memórias jorraram em catadupa sobre a minha cabeça pequenina e o resultado é a inundação deste texto, que não vou guardar em Word como os outros, que não irei reler, que será espontâneo, que irá destoar dos outros mas no fundo faz parte da experiência de estar déplacé aqui na Argélia e conviver vinte e quatro
A professora de língua portuguesa diz aos seus alunos:
- Num texto corrido, os números escrevem-se sempre por extenso.
horas por dia com a obra, com a cultura estranha que tanto deu a fazer a vários reis nossos, com o trabalho, com as saudades, com o calor (se vissem como estou agora), com a areia e o pó, com todas essas coisas que tornam o facto de estar no deserto numa coisa "gira".
A margem sul do Tejo é uma coisa onde eu vivia na altura em que o ministro Mário Lino decidiu dizer que a margem sul do Tejo era um deserto. Foi mais ou menos por essa altura que soube que viria para aqui, o que me rendeu comentários
- Vais sair de um deserto para ires para outro!
sem piada nenhuma. Quer dizer, na altura tinham piada mas agora deixaram de ter porque começo a ter saudades até da margem sul do Tejo.
No Lavradio, freguesia do concelho do Barreiro, existe um depósito gigante de gesso que forma um planalto com uma extensão enorme. Localmente, é conhecido como 'Montes da Lua', devido ao seu aspecto árido e inóspito. Cativa pela sua estranheza. Visitei os Montes da Lua várias vezes quando vivi por ali e pude ter uma perspectiva diferente do estuário do Tejo: vê-se o casario de Lisboa, o cristo-rei de Almada, a base aérea do Montijo, as pontes, a ilha do Rato, as fábricas do Barreiro. Das vezes que lá fui estava frio e um vento do caraças. Cativa, acreditem: é desolador, assustador, perturbador ver uma quantidade enorme de gesso mesmo à beira do nosso Tejo, mas cativa. Os U2, os Blasted Mechanism, o Cristiano Ronaldo e os actores do Filme da Treta pensam o mesmo, porque já lá fizeram sessões de fotografia-barra-filmagem.
Para mim os Montes da Lua eram o deserto da margem sul do Tejo e acho que gosto desse tipo de sítios em que uma pessoa se sente perdida e espantada. É isso: estava espantado. Gosto de coisas que ainda me espantam. Tamanrasset e o Saara espantam-me. Surpreendem-me. Já cá estou há quase dois meses e ainda há qualquer coisa que me surpreende, que estranho: acho isso fabuloso. Há qualquer coisa neste espanto que me faz ter vontade de conhecer e perceber os sítios, e é isso que me cativa. Isso acontece mais nos sítios feios e difíceis porque são esses que se têm que olhar com mais atenção para se compreender que todos os sítios têm o seu encanto. Atenção: eu disse encanto e não beleza.
Certa vez, em Lagos, estava à procura de um restaurante quando um rapaz com dois finos na mão me abordou em inglês oferecendo-me ajuda e uma das cervejas. Recusei a cerveja e aceitei a ajuda. Revelou-me a direcção para o restaurante que procurava e acompanhou-me. Chamava-se Jamie, tinha dezassete anos e era australiano. Estava a trabalhar em Lagos. Quando lhe perguntei porque razão um australiano tão novo tinha vindo para tão longe de casa, ele respondeu-me:
- Oh, but Lagos is the best, man!
Acho que serve tudo isto para dizer que tenho saudades de Portugal. Mais nada. Prometo que da próxima escrevo qualquer coisa gira sobre a Argélia, sobre Tamanrasset, sobre o deserto, qualquer coisa que contribua para dar a conhecer a vida aqui. Mas neste preciso momento - e se for necessário, apagarei este texto e negarei tudo -, só consigo escrever sobre o sítio onde estou.
22/09/2007
O gamadensímetro
Neste momento está a aplicar-se tuf. Periodicamente, um fiscal técnico de laboratório chamado Aissa vai até à obra para verificar com um gamadensímetro se a compactação está dentro dos valores devidos. Enquanto esperamos que o aparelho cuspa os resultados do ensaio, conversamos em francês. O tema mais frequente a seguir ao trabalho é a religião. Mais propriamente, as diferenças entre as nossas religiões. Como está a decorrer o Ramadão, este tema vem à baila mais vezes ainda.
O Aissa prepara o aparelho para o ensaio e eu aproveito a necessidade de me distanciar para ir até à carrinha buscar uma garrafa de água. Está a cinquenta metros de nós, perto do último ponto que analisámos. Caminho sobre o tuf compactado que se prolonga como uma passadeira até desaparecer em curva no cimo de um monte. Está um vento fortíssimo, que nos refresca ao mesmo tempo que nos enche de areia. De cada lado da estrada há colinas de areia e pedra a perder de vista onde pouca gente, incluindo os argelinos, se aventura. No cimo dos montes mais próximos voejam bandos de corvos que são atraídos pela água que misturamos no tuf: são silenciosos e não incomodam, mas saltam à vista por causa do contraste que fazem com a monotonia da paisagem. Chego à carrinha, pego na garrafa e regresso para junto do Aissa. Bebo um trago e ofereço-lhe água, sorrindo. Sei que ele vai recusar porque é Ramadão. Faz que não com o dedo e diz:
- Le Dieu.
Depois, pergunta-me se não faço Ramadão. Rio-me e respondo-lhe que não, dizendo que cada um de nós adora o mesmo deus de formas diferentes. O Aissa insiste na ideia de que eu devia fazer o Ramadão: segundo ele, quando morrermos, Deus irá ter em conta todas as rezas efectuadas e Ramadões cumpridos antes de nos decidir aptos para o Paraíso. Não sou religioso: talvez seja por isso que comentei que o Paraíso será ganho se agirmos em vida de acordo com certos valores, como a bondade, honestidade e honra, os três únicos valores que na altura consegui dizer em francês. O fiscal retorque que existe uma componente de veneração que não pode ser descurada. Algo que eu já sabia e que é responsável por eu não ser religioso. Não tenho paciência para missas, quanto mais passar um mês sem comer durante o dia.
O vento leva os corvos a pairar no ar sem se mexerem, levanta-me o cabelo e ameaça o boné do Aissa. Faço o Aissa notar que um deus bondoso não o obrigaria a estar ali ao calor com os lábios e os dentes cobertos de areia e pó trazidos pelo vento sem o deixar beber água, mas o homem objecta que o seu deus não o obriga a nada: os árabes só fazem o Ramadão se quiserem. A conversa estagna.
Examinamos o ecrã do gamadensímetro e encontramos um valor favorável, que o Aissa escreve numa folha de papel dobrada em oito. Pegamos no aparelho e avançamos mais cinquenta metros, indiferentes ao vento cada vez mais forte que já obrigou os corvos a pousar.
20/09/2007
As feras
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