20/09/2007

As feras

A esta luz, reconheço que o sinal de perigo português análogo a estes não deixa de ser um bocadinho ridículo, embora ache que a ovelha seja um bocado exagerada. Até porque ainda não vi nenhuma.

19/09/2007

Os olhos

Li uma vez num livro qualquer a seguinte frase: “as mulheres europeias, que usam argolas nas orelhas, acham que as mulheres africanas, que usam argolas no nariz, são bárbaras”.

As mulheres que se vêem em Tamanrasset, na sua grande maioria, envergam uma espécie de lenço chamado khimar que lhes cobre a cabeça e, em alguns casos, também a cara. Há uns dias atrás, cruzei-me na rua com uma mulher que tinha a cabeça completamente tapada, deixando apenas uma pequena abertura na zona dos olhos para conseguir ver. Olhámos um para o outro com estranheza: ela, presumo que tenha sido por causa do boné e dos grandes óculos escuros que eu trazia e me cobriam grande parte da cara também.

17/09/2007

Aboukh e as coisas importantes

Cheguei ao refeitório para jantar. O ajudante de cozinha, que mais tarde vim a saber chamar-se Aboukh, indicou-me os vários pratos que tínhamos à disposição nesse dia, dizendo os nomes dos alimentos em português e acompanhando-os com o dedo:
- Frango, peixe, batatas, arroz, merda.
Nessa altura, através deste rapaz árabe, comecei a aperceber-me de que, por mais que as nossas culturas tenham diferenças, estas serão sempre superadas pelas semelhanças humanas que partilhamos: quanto mais não seja, a piada em aprender palavrões noutras línguas.

Sexta-feira – de um modo geral porque nem sempre – é o dia de descanso, o que significa que a noite de quinta-feira é mais comprida que as outras. O jantar prolonga-se ao ritmo da conversa, a conversa prolonga-se ao ritmo da cerveja e a atmosfera é indubitavelmente mais leve. Às vezes, há enchidos ou bacalhau, duas coisas que não existem em Tamanrasset e mesmo em Argel não se encontram em qualquer lado. A presença desse tipo de víveres aqui deve-se a alguns portugueses que, quando regressam das férias em Portugal, trazem a mala cheia deles. Depois, os patrícios juntam-se à volta de uma mesa e come-se do que houver. Numa dessas vezes – aquela em que, desde que cá estou, se juntou mais gente à volta da mesa – o Aboukh estava a trabalhar na cozinha. Servindo-nos as cervejas, imitou os trejeitos de alguns portugueses numa mímica desajeitada acompanhada de palavrões em português. Fez rir toda a gente.

O Aboukh é muito apreciado pelos portugueses devido ao seu bom humor constante. Não é preciso falar em francês com ele: percebe praticamente tudo o que se lhe diz em português, incluindo palavrões e insultos. E quando o insultamos em árabe, ele insulta-nos em português: é simples. Por vezes, quando o tentamos convencer a comer enchidos de porco e a beber álcool, ele sorri, aponta o dedo para o céu e chama-nos nomes. Sem o saber, tem uma forma elegante de nos fazer prestar atenção aos valores dos árabes.

Podia dizer que gosto do Aboukh por ter simpatia e bom humor, mas estaria a mentir. A verdade é que gosto do Aboukh por ter uma família de treze pessoas que vive do seu ordenado e, agora sim, simpatia e bom humor.

Dizia eu há bocado que, por mais que as nossas culturas tenham diferenças, estas serão sempre superadas pelas semelhanças humanas que partilhamos. Toda a gente sabe isto, e toda a gente esquece. Mas graças ao Aboukh, não só compreendi para sempre que há, de facto, valores universais, como também já sei dizer ‘merda’ em árabe. É ‘khra’.

13/09/2007

y=x^2

Portugal entra-nos por aqui. Notícias. Futebol. Maddie. Séries. Novelas. Filmes.

Há quem tenha deixado de ver televisão porque não aguenta as saudades que isso provoca. Ao assistir ao telejornal no fim da minha primeira semana cá, apercebi-me exactamente dessa sensação: um nó na garganta que desafia as leis da física e nos bate levemente no ombro dizendo "agora só daqui a muito tempo".

Um nó pequeno: afinal de contas, somos todos homenzinhos.

12/09/2007

O Deus

Não raras vezes, assisto a árabes a rezar. Largam o que estão a fazer, ajoelham-se no chão, alguns estendem um tapete pequeno antes dos joelhos e prestam adoração a Deus. Fazem-no em qualquer lado: na mesquita, em casa, no deserto, na rua, no trabalho. O sol indica-lhes Meca: a Arábia Saudita fica para leste, por isso de manhã rezam virados para o sol e à tarde de costas para ele. Em Tamanrasset, tal como em todo o país, ouvem-se os cânticos a sair dos megafones que há nas torres das mesquitas. As palavras – ininteligíveis para mim – são lentas, arrastadas e melancólicas, e espalham-se num eco por todas as ruas, misturando-se com o ar e com o calor, entranhando-se na cidade.

Amanhã, dia 13 de Setembro, começa o Ramadão. Segundo exigem os princípios islâmicos, o fiel deverá passar trinta dias sem comer nem beber desde a alvorada até ao pôr-do-sol. Também deverá abandonar o álcool, o tabaco, o sexo e as pastilhas elásticas. Todo este jejum é seguido religiosamente – literalmente! – pela maioria dos árabes, e como estamos no país deles temos que nos adaptar. O refeitório irá estar aberto de madrugada e, à porta, foi afixada a informação das horas exactas da alvorada e do ocaso.

Segundo diz quem já viu, os árabes passam mal os primeiros dias do Ramadão. Trocam os horários ao organismo e sofrem com a fome, até se habituarem ao novo regime de jejum ao fim de uns quatro ou cinco dias. Não podem sucumbir: se desrespeitarem um dia do Ramadão, têm que jejuar durante sessenta dias em vez de trinta. Se desrespeitarem esses sessenta dias, sujeitam-se a cento e vinte, e assim por diante até ao ‘mais infinito’. Os doentes, as grávidas e os viajantes estão dispensados de fazer o Ramadão.

Como todas as questões religiosas, a decisão de fazer ou não o Ramadão é pessoal e depende da fé. Há árabes que não seguem a religião islâmica, à semelhança do que acontece com muitos católicos em Portugal. No norte da Argélia, região mais ocidentalizada, a taxa de praticantes é menor do que no sul. Os jovens também têm tendência a ser mais liberais neste aspecto. Porém, todos os argelinos a quem pergunto se vão fazer o Ramadão – e pergunto a bastantes – respondem que sim. De uma forma geral, os árabes levam a religião mais a sério que nós. Mas até um colega nosso, o Ezequiel, português de gema que se converteu ao islamismo há algum tempo, vai fazer o Ramadão.

Hoje ao jantar, o Nuno, colega nosso, conta que perguntou ao rapaz argelino que começou agora a trabalhar connosco se ia fazer o Ramadão. Ele respondeu que sim: “bebendo whisky com fartura”.

11/09/2007

J'ai oublié all my life

O topógrafo da fiscalização, natural de Ghardaïa, trabalhou em Hassi Messaoud durante muito tempo e por isso prefere falar inglês com os estrangeiros. Eu respondo-lhe sempre em francês porque me faz uma confusão enorme ouvi-lo em inglês, aos colegas dele em francês e aos meus colegas em português: o resultado disto tudo é eu dar comigo a dizer, como aconteceu hoje, coisas do tipo “ça va, my friend”, “beaucoup money” e “j’ai something for you”.

Hassi Messaoud - O bom, os maus e o Tinoni

A centenas de quilómetros a norte daqui existe uma pequena cidade chamada Hassi Messaoud, da qual se ouve falar muito. É uma cidade pequena mas muito famosa na Argélia devido à grande extracção de petróleo e gás natural que se faz na sua zona. Há uma grande concentração de empresas europeias e americanas com actividades relacionadas com estes recursos naturais, o que torna Hassi Messaoud uma cidade rica e badalada. São muitos os europeus e os americanos, a cidade é desenvolvida, os aviões saem a horas, os contratos de emprego são aliciantes, a língua forte é o inglês e não o francês, as transacções são milionárias. Contudo, segundo a opinião geral dos argelinos com quem falo, os nativos de Hassi Messaoud são os argelinos com pior feitio. Não sei porquê, mas pelo que já pude ver estou inclinado a concordar. São desconfiados, arrogantes, vigaristas, preguiçosos, mal-humorados, prepotentes, enfim: uma vasta gama de defeitos. Estará essa atitude relacionada com o rebuliço à volta dos recursos naturais da sua terra? Consequência de incompatibilidades culturais? Problemas que surgiram com os estrangeiros? Competição na corrida ao ouro negro? Ou apenas um problema de maus fígados?

Fígados ou não, o facto é que grande parte do gás natural consumido em Portugal vem da Argélia. Por isso, da próxima vez que acenderem um bico de fogão lembrem-se de mim. A não ser que não tenham gás canalizado. Nesse caso, lembrem-se do conselho do Tinoni de não deitar a bilha para aproveitar o restinho de gás que ficou lá no fundo, porque é perigoso: eu estou a avisar.

06/09/2007

Crise de identidade

O engenheiro argelino que vai realizar a intervenção nas oueds intersectadas pela estrada, já meu conhecido, age como se lhe agradasse ver um miúdo novo a trabalhar com ele. Sempre que me vê é extremamente simpático e cordial. Um dia, perguntou-me a sorrir:
- Do you understand english?
Respondi-lhe que sim, e ele atirou, pondo as mãos nos meus ombros e rindo:
- You look like an american star!


O meu nome próprio é extremamente simples porque só tem três letras, mas isso não impede os argelinos a quem me apresento ou sou apresentado de terem alguma dificuldade em pronunciá-lo. Alguns deles perguntam-me, para confirmar se compreenderam o nome:
- Rui? Comme Rui Costa, le footballeur?
E quando lhes respondo que sim, nunca mais se atrapalham com o meu nome.

Notícia de rodapé de noticiário em Portugal no dia 6 de Setembro de 2007

Nenhum português dos que aqui estão – incluindo eu – gosta de andar com a escolta policial atrás. Chegam atrasados, atrasam-nos e, muitas vezes, estorvam-nos. Alguns são extremamente antipáticos. Correm boatos, oriundos da própria polícia, de que no estaleiro de In-Guezzam a segurança terá de ser levada muito a sério, por estarmos em pleno deserto quando nos mudarmos para lá.

Atentado em Batna, no norte do país, a cerca de 1400km de Tamanrasset. Um suicida fez-se explodir no meio de uma multidão que aguardava a chegada do presidente Abdelaziz Bouteflika. Cerca de uma dezena de mortos e mais de trinta feridos.

05/09/2007

O deserto, afinal

No cimo do monte, olho em volta para ver um pouco mais da paisagem. É arrebatadora. Repete-se até ao horizonte, onde não dá sinais de terminar. Daqui, percebe-se a facilidade com que nos poderíamos perder se não existisse a estrada, mesmo no estado em que está. Sinto-me nervoso por estar longe da carrinha e desço dali.

‘Está calor aí?’ Ouço a pergunta imensas vezes, e respondo-a outro tanto. Está calor sim. Apesar de chover bastante aqui nos meses de Julho e Agosto, a época chuvosa do Hoggar, está sempre calor. Contudo, Tamanrasset é relativamente amena: se nos afastarmos da cidade em qualquer direcção, começamos a descer das montanhas e sentimos um calor mais forte. A norte em In-Salah, a sul em In-Guezzam, a oeste em Bordj Badji Mokhtar e a leste em Djanet, a pluviosidade desaparece e as temperaturas atingem valores inacreditáveis, aproximando o Saara da ideia que temos dele. As maiores semelhanças entre este sítio e a forma como imaginamos o deserto são, na minha opinião, os tuaregues e as temperaturas altas. A paisagem da zona não é constituída por uma infinidade de dunas amarelas ou cor-de-laranja, nem o oásis de Tamanrasset é um aglomerado de palmeiras em redor de uma nascente de água. As dunas infinitas existem nos ‘ergs’, ou mares de areia, que são apenas uma parcela do Saara, e muitos oásis só têm água à superfície quando chove. Até os camelos são uma farsa: ainda não vi um único desde que cá cheguei. O que há são dromedários. Para além deles, encontram-se imensos animais: cabras, burros, pássaros, lagartos, cobras, escorpiões e gazelas pequenas. Quase todos são da cor da areia, excepto as cabras, os burros e uns escorpiões pretos enormes. Desses, só vi fotografias, e chega.

O sol é terrivelmente forte: todos os colegas que cá estão tiveram um período de habituação, tal como eu, que estava de rastos ao fim dos dois primeiros dias que passei ao sol. Já houve um português que teve de ser hospitalizado por exposição excessiva ao astro-rei. Contudo, ao fim de algum tempo ficamos habituados e passamos a só precisar de água. Muita água.

A paisagem é constituída principalmente por uma terra arenosa que em alguns locais – e aí sim – é completamente substituída por areia. Há montes dessa areia encimados por pedras pretas, castanhas, vermelhas, brancas ou azuis. Ou, simplesmente, montes de pedra. Nem sempre se vê o horizonte com nitidez, sobretudo nas zonas mais para sul de Tamanrasset, onde tudo se transforma numa planície que continua para sempre. A paisagem inóspita causa um primeiro impacto igual ao do sol: bate-nos com força e recorda-nos de que não estamos em casa mas sim num planeta estranho. Mas depois vamo-nos dando cada vez melhor.

A poeira no ar é a única coisa que me incomoda aqui. Enquanto escrevo isto ouço uma grande ventania lá fora que levanta poeira: sinto-a logo no nariz, custa-me a respirar e entrego-me à mercê dos pêlos das minhas narinas.