05/11/2007

Wrong kind of blues

Na banda sonora do filme 'A residência espanhola' está incluída uma música chamada 'Ai Du', do guitarrista maliano Ali Farka Touré. Quando vi esta fita, a canção despertou-me a atenção e comecei a ouvir o trabalho deste músico, o chamado "John Lee Hooker africano". Anos depois, já na Argélia, passeava-me pela obra com um CD deste intérprete no rádio da carrinha. Alguns dos argelinos que por vezes me acompanham reconhecem a música e o artista, e cantam a letra incompreensível enquanto abanam a cabeça de olhos fechados.

Os pretos do Niger e do Mali que vão buscar pedras às montanhas para construírem muros de gabiões são mão-de-obra barata para as empresas argelinas. Alguns nem recebem dinheiro: trabalham apenas para comer. Vivem em tendas improvisadas no meio do deserto por toda a duração da sua obra e instalam-se o mais confortavelmente possível. Fabricam cabanas com tábuas e plástico para dormirem, halteres com varões de aço e cimento para se exercitarem, e até guitarras com paus, latas e arames. Alguns, enquanto atiram pedras de um lado para o outro, cantam músicas melancólicas com letras incompreensíveis. As suas músicas, em particular, são o que mais me emociona. Sabe-se lá se são alegres ou tristes, de onde vêm, o que querem dizer, quem as compôs. Quando não há vento e o deserto está em silêncio, as suas vozes enchem o ar, o sítio ganha a banda sonora que se lhe adequa e surge uma atmosfera confortável, como se estar aqui começasse a fazer sentido: da mesma forma que nos filmes a música complementa a acção do ecrã.
É por isso que se ao passar perto dos muros e eles estiverem a cantar, aproximo-me muito devagar para que não reparem que cheguei.

Ao subir para a carrinha para ir fazer um trabalho a um quilómetro dali, o Mustapha, um servente preguiçoso, aponta para o rádio e pede-me entusiasmado:
- Ali Farka, Ali Farka!
Porque já tinha andado antes na carrinha comigo.

26/10/2007

O Dom Afonso Henriques

No dia a seguir a ter chegado de férias, uma sexta-feira, houve jogo de futebol entre portugueses e argelinos. Oito portugueses contra doze argelinos. Muitos portugueses não pegavam numa bola há muito tempo. Eu próprio já não jogava futebol há anos. Perdemos, mas não faz mal: conforta-me saber que a mouralhada já levou porrada nossa que chegue.

O Portugal (Argélia entre parêntesis durante um bocado)

'Congé' é uma palavra que se usa muitas vezes aqui. A política de férias na Argélia é boa, sendo estas por norma longas, sobretudo se se trabalhar no sul. A rotatividade do pessoal do laboratório argelino que fiscaliza o nosso trabalho é grande, e quando partem de férias fazem-no por períodos de um mês ou dois. Em meados de Outubro, foi a minha vez de ir de férias a Portugal. "Moi? Congé."

Quando aterrei em Argel às tantas da madrugada e caía uma chuva miudinha e fria enquanto eu esperava que me viessem buscar, não fazia ideia que, ao chegar a Lisboa no dia seguinte me ia sentir quentinho por dentro. Não devido ao sol, mas ao aconchego e à pressa de viver uma semana intensamente. Não imaginava o prazer que ia sentir ao ter dificuldade em vencer o trânsito da rotunda do relógio, ao acelerar na autoestrada rumo a casa, ao beijar a família, ao abraçar o cão, ao almoçar num restaurante, ao abraçar os amigos, ao tomar um café no café de sempre, ao sair à noite, ao beber uns copos, ao combinar tanta coisa com tanta gente, ao ouvir reprimendas das pessoas com quem não tive tempo de estar, ao contar histórias, ao ouvir histórias, ao dormir num quarto a sério, ao comer comida a sério, ao comer comida de plástico, ao sentir-me confortável finalmente, ao pensar que afinal as saudades eram muitas, ao pensar que afinal tinha mais saudades ainda do que pensava, ao pensar que as saudades não são mais que dias de chuva que fazem dar valor aos dias de sol, ao pensar que a chuva miudinha e fria com que Argel me recebeu às tantas da madrugada não era mais do que um abraço de boas-vindas, ao pensar que afinal de contas o deserto não é assim tão duro, ao lembrar-me - que diabo - que o deserto não custa assim tanto, ao verificar que se eu não fosse tão distraído assim tinha reparado há uns meses atrás no bom presságio que era os dinossauros coloridos do relógio da minha cozinha estarem a sorrir para mim.

14/10/2007

O jejum

Nos meus aniversários, costumo receber uma carta de parabéns de uma instituição para a qual dava sangue quando era estudante. Nesta, desejam com eufemismos comerciais que o meu aniversário se repita por muitos anos para poder continuar a dar sangue. Ou seja, convém que o gajo que dá sangue viva muito tempo para garantir um certo stock: acho alguma piada ao facto de mo dizerem frontalmente logo no meu dia de anos, como se não tivessem vergonha de admitir. É reconfortantemente sincero.

O fim do Ramadão é assinalado por uma festa chamada Aid El-Fitr, cujo nome significa "fim do jejum". É um feriado tão importante para os islâmicos como o Natal é para os cristãos.

Os festejos começaram às oito da manhã com uma reza ao ar livre que juntou imensa gente numa oued que atravessa o centro da cidade. Imensas pessoas fizeram as suas orações em conjunto nesse local, virados para Meca. Depois da reza, veio a hora da refeição que iria vingar o mês de jejum: os crentes comeram imenso, juntaram os entes queridos e ofereceram prendas uns aos outros. As ruas de Tamanrasset encheram-se de vida: as pessoas vestiam roupas melhores e mais coloridas, percorriam as ruas em pequenos grupos alegres e levavam doces e garrafas na mão. A cidade ficou animada até altas horas da noite. Ninguém trabalhou no dia seguinte devido ao feriado e, em alguns casos, a indigestões nos estômagos desabituados a grandes farturas.

A propósito dos parabéns dos senhores do sangue, lembrei-me que, certa noite, acordei com o toque de uma mensagem de texto no meu telemóvel com número argelino. A Mobilis, operadora de telecomunicações da Argélia, desejava-me um feliz Aid El-Fitr. Já foi há algum tempo atrás, mas lembrei-me disso porque enquanto escrevia este texto a nossa ligação à internet da Mobilis foi abaixo. Podia dizer que as felicitações são secundárias relativamente ao serviço pago. Mas o facto é que, quando recebi a mensagem naquela noite, eram quase horas de acordar e já estava, de facto, com um ratito no estômago.

12/10/2007

Assekrem

Lembro-me de uma tarde, nos meus primeiros tempos aqui, em que entrei na sala de reuniões que esperava encontrar deserta e me deparei com uma senhora de meia-idade vestida como as mulheres locais, sentada numa cadeira de costas para a porta que eu acabava de transpor. Nunca a tinha visto. Sabia que ela não trabalhava connosco, até porque ela não estava a trabalhar: lia um livro pequeno e parecia estar à espera de qualquer coisa. Ao ouvir-me entrar, virou-se para mim e cumprimentou-me em português. Depois de alguns minutos de conversa, fiquei a saber que a senhora era professora de História em Lisboa e estava a visitar Tamanrasset e o Hoggar como turista pela segunda vez. O guia que tinha contratado contou-lhe que havia portugueses a trabalharem na zona e prontificou-se a trazê-la ao nosso estaleiro enquanto esperava pelo seu avião de regresso. Estava vestida daquela forma porque tinha perdido a mala durante um voo, pelo que, segundo ela, tinha sido obrigada a comprar roupas locais. Gabou-me a sua viagem e o seu guia: conheceu paisagens incríveis do Hoggar, viu as gravuras rupestres que abundam aqui na zona e conheceu o Assekrem. O Assekrem é uma zona montanhosa com um nascer e um pôr-do-sol magníficos e um dos sítios mais altos da Argélia (estatuto perdido por uns duzentos metros). Já tinha visto fotografias e lido sobre este local antes de vir para a Argélia: muitos turistas vão visitar o Assekrem e passam lá uma noite, para verem o sol a pôr-se e a nascer. Por isso, quando a mulher me perguntou se eu queria ver as fotografias que ela tinha tirado, respondi:
- Não.
Porque sabia que nenhuma fotografia faria jus a uma aurora ou crepúsculo. E porque tencionava lá ir um dia.

A visita ao Assekrem foi combinada com alguns dias de antecedência, o que garantiu uma aderência e organização credíveis. Seria uma caravana de quatro carrinhas com vários portugueses e dois argelinos que trabalham connosco como motoristas de camião. Um deles foi guia turístico num emprego anterior e seria o nosso guia nesta viagem: ninguém sabe ao certo o seu nome, porque todos o tratam pelo apelido carinhoso de Bob Marley. Saímos do estaleiro e atravessámos a cidade, seguindo para leste. O Assekrem fica a oitenta quilómetros de Tamanrasset, o que não implicaria uma viagem longa se não fosse o estado do caminho até lá. Aliás, falar em caminho é um luxo: metade do percurso é sobre pistas de terra batida e a outra metade é sobre trilhos de pedra que põem qualquer pneu em pânico. Portanto, duas horas e meia para cada lado, fora o tempo investido em paragens para tirar fotografias.

A primeira paragem sugerida pelo Bob Marley foi no sopé de um monte com cerca de vinte metros de altura, no cimo do qual estava a ruína de uma guarita construída com pedra local nos tempos da ocupação francesa. As suas paredes interiores estavam cobertas de inscrições árabes gravadas na pedra que terão sido gravadas durante longos períodos de vigia, após um pequeno combate como celebração de vitória, ou por vândalos que sucederam à guerra. Dali, tem-se uma boa perspectiva da região circundante e nada mais, até se descer.

Perto dali, parámos no segundo ponto de interesse: um pequeno lago que se formou na base de várias escarpas verticais em pedra. 'Boas para fazer escalada', comentou-se. Água turva, nada de invulgar se não fosse a maior massa de água permanente que tínhamos visto cá até àquela altura. Seguimos viagem depois de algumas fotografias.

O percurso que encetámos a seguir, indicado pelo Bob Marley, deu-nos a certeza de estarmos a abandondar a paisagem típica de Tamanrasset para a substituir por uma de rocha. Por entre planaltos constituídos unicamente por pedras pequenas apenas desafiadas por oueds ocasionais e escarpas rochosas de agulhas vulcânicas, avançámos algumas dezenas de quilómetros na direcção das montanhas. Tínhamos a nítida sensação de estar sempre a subir apesar da monotonia da condução. Da condução, não do traçado: na paisagem de pedra surgiram dromedários, burros, pequenos indícios do Homem como placas que designavam sítios estranhos que ninguém no mundo sabe que existem e postes com pequenos cilindros em cima que ninguém no mundo sabe para que servem. E, à frente de tudo isto, umas flores vermelhas que encontravam o sol nos espaços entre as pedras. As flores também faziam a minha imaginação trabalhar e passavam a ter características místicas como efeitos medicinais incríveis, desabrochar apenas uma vez na vida para morrer logo depois ou simplesmente serem obra de um capricho da natureza que, segundo se lê na paisagem, ainda tem muito que fazer por aqui até esta região se tornar suportável.

A visita seguinte foi em mais uma massa de água acumulada por entre a rocha: desta vez, um riacho. Um curso de água que descia das montanhas engordava naquela zona há tempos infindos, a julgar pela forma lisa e arredondada das rochas e pela presença de peixes. Peixes no Saara guardados por um tuaregue solitário cujo trabalho é ser "o guarda das montanhas", como informou o Bob Marley. Vive numa cabana com um jipe branco estacionado em frente e mostra a zona aos turistas que o abordam. Depois da visita e das fotografias, continuámos a subir pelas montanhas.

A partir do riacho com os peixes, o caminho parecia-se com tudo menos um caminho. Os pneus rolavam sobre trilhos de pedra mais enterrada que a circundante, fazendo adivinhar um trilho e temer os furos. As carrinhas seguiam devagar, à velocidade do passo de uma pessoa. As formações vulcânicas que caracterizam a zona tornavam-se cada vez mais frequentes e assumiam formas cada vez mais invulgares. À nossa volta, ao perto e ao longe, viam-se as montanhas a perder de vista, já abaixo de nós.

Os últimos dez quilómetros são terríveis: demoraram meia hora a fazer. No fim do trilho encontra-se uma espécie de aldeia constituída por uma estalagem com alguns quartos e sala de refeições, uma base militar para os guardas da zona e um pequeno armazém com geradores de electricidade e painéis solares no telhado. O Assekrem fica mais acima ainda, a umas dezenas de metros que têm de se percorrer a pé. O trilho lá para cima vence um grande declive por troços em ziguezague. Alguns turistas franceses estavam já a subir quando lá chegámos, mas - à boa moda portuguesa - ainda tivemos tempo de lanchar antes de subir: sandes, panados, sumos e cerveja trazidos de Tamanrasset.

A palavra 'assekrem' significa, na língua regional dos tuaregues, 'fim do mundo'. Pelo caminho que tem de se fazer para lá chegar, talvez seja um nome apropriado, mas a paisagem parece mais o princípio de alguma coisa que talvez uns milhões de anos mais tarde se transforme - aí sim - no mundo. No cimo do trilho existe um planalto enorme que deixa ver as montanhas até onde a vista alcança. Cada forma estranha de cada pináculo é revelada e deixa de parecer bizarra para parecer apenas bonita, inserida num todo que agora se consegue perceber visto de cima. Nesse sítio, existe uma casinha minúscula e uma capela onde viveu o padre Charles de Foucauld - Père de Foucauld -, um boémio que se converteu ao espiritualismo e veio procurar sossego e meditação nas montanhas do Hoggar. Pregou uma palavra muito própria e elaborou um dicionário da língua local dos tuaregues até ser assassinado em 1916 à porta da sua cabana devido a divergências religiosas.

Após a visita à última parte da vida deste padre, dirigimo-nos para o extremo oesto do planalto, onde o sol já se preparava para desaparecer. A luz derradeira do dia era rosada e pousava na face das montanhas explicando cada reentrância e saliência com calma. Ao pôr-se depressa atrás dos últimos píncaros do horizonte, o rosa transformou-se em laranja e espelhou-se nas nuvens. Tudo à nossa volta incluindo as pedras, as montanhas, nós e até os turistas franceses ficou alaranjado de um lado e escuro do outro, de uma maneira em que os dois tons se fundiam para retirar a identidade a cada coisa e tornar tudo numa só: a luz. As nuvens tornaram-se cada vez mais alaranjadas até que começou a escurecer. No fim, as pedras voltaram a ser pedras, os turistas voltaram a ser turistas e os portugueses falaram em regressar a Tamanrasset porque não seria fácil fazer o caminho de regresso no escuro apesar do Bob Marley. Pudera: um pôr-do-sol majestoso como este rouba toda a luz da região durante várias semanas - não percebo os painéis solares - e ninguém me convencerá do contrário.

30/09/2007

Mil novecentos e troca o passo

Quando o traçado de uma estrada se quer mais alto do que o terreno natural, é preciso construir um aterro. Para isso, vai-se buscar o material para aterro - que é o próprio solo - a sítios onde ele existe com características e quantidades adequadas, cujo nome técnico é 'zonas de empréstimo'. Apesar de terem este nome, julgo que até hoje ninguém devolveu o solo "emprestado", retirando-o da estrada e colocando-o novamente no local de origem: de qualquer forma não há problema porque também não é sujeito a juros.

Quando o Abduljabar, o técnico de laboratório argelino, foi à carrinha buscar o estudo das zonas de empréstimo ao longo do traçado, nunca pensei que se tratasse de um documento com quase trinta anos. Porém, não seria de esperar outra coisa, porque o próprio projecto da estrada tem a mesma idade. Estávamos em pleno deserto, numa zona vasta praticamente plana onde só se vêem montes castanhos ao longe separados da planície de areia por uma linha do horizonte azul, tremeluzente e aquática: miragens, da cor do céu. Como acontece vulgarmente, fazia um vento forte, que, para além de tornar complicado folhear as páginas do caderno antigo e descobrir nele a informação pretendida, fazia tremer o boné azul do Abduljabar.

O documento estava demasiado branco e bem conservado para pôr de parte a hipótese de ter sido fotocopiado em boa hora para evitar desintegração. O seu conteúdo, porém, revelava a sua antiguidade: cada zona de empréstimo era representada numa página por um esquema altamente dúbio constituído por uma linha recta (o traçado da estrada), um pequeno marco quilométrico estilizado, um desenho rudimentar das montanhas que se podiam ver naquela área e um polígono delimitador da zona de solo adequado para construir aterros, com a respectiva distância à estrada. No sítio onde estávamos, descobrir a localização exacta do polígono no terreno pareceu-nos uma tarefa quase impossível: o único ponto de referência credível era o marco. Mais impossível nos pareceu ainda quando o Abduljabar nos disse que os pontos do polígono estavam assinalados no terreno.

Lembro-me que, ao ouvir isto num francês gritado com força superior à do vento, olhei em volta para tentar perceber o que havíamos de fazer. A região pareceu-me ainda mais plana e ainda mais incaracterística. Só algumas pedras negras rasgavam a superfície arenosa e a monotonia da paisagem: assinalados como?

Ao seguirmos o técnico argelino, que tentava orientar-se pelo desenho e impedir o voo do boné e das páginas fotocopiadas (de certeza que fotocopiadas), apercebemo-nos de que ele procurava qualquer coisa nuns pequenos montes de areia e pedra, pouco visíveis à distância. Segundo ele, havia qualquer coisa ali que assinalava os pontos do polígono que tinha no esquema altamente dúbio do caderno. Fomos seguindo o Abduljabar à medida que ele se dirigia para os montinhos que detectava à distância para os sondar com uma pá.

Os montinhos não se distinguiam bem à distância devido à sua pequena dimensão. A areia e pequenas pedrinhas que os constituíam não destoavam do resto da paisagem. Alguns eram formações naturais, outros talvez feitos por alguém para criar pontos de referência, como é comum: por todo o percurso de Tamanrasset até In-Guezzam há montes de areia e pedras que assinalam o trajecto e mostram o caminho. Talvez devido a isso, eu estava céptico relativamente aos montes. Pelo menos até o Abduljabar, vencendo o vento no que diz respeito às páginas e ao boné, ter encontrado um papel sob uma pedra num destes montinhos.

Era um papel grosso, que parecia ter sido arrancado de uma embalagem de qualquer coisa à laia de improviso. Alguém tinha escrito nele a lápis, há quase trinta anos, que aquele montinho correspondia ao quarto ponto do polígono da décima quarta zona de empréstimo. Depressa pensei que aquele papel e aquela informação de grafite era, muito provavelmente, mais antiga do que eu. E tinha subsistido, perfeitamente legível, ao vento que rouba fotocópias e bonés durante todo esse tempo apenas com a ajuda de uma pedra. Surreal e mágico: resistiu mais impunemente aos anos do que eu e, certamente, do que quem o colocou ali. Como uma cápsula do tempo, só que sem cápsula.

Foi por isso que, antes de partirmos em busca dos restantes montinhos, reslovi tirar uma fotografia ao papel. Pedi a alguém para me segurar no papel e tuca. Achei curioso, interessante e bizarro e por isso tuca. Tuca porque assim, mesmo que o vento leve os bonés, as fotocópias (é tão certo que fotocópias) e os papelitos, terei a certeza de que estes tempos que passo aqui ainda estarão num sítio qualquer perto de mim (e se calhar também faço um esquema altamente dúbio para os conseguir encontrar) daqui a mais uns trinta anos.

A modorra e os soldados

O organismo do estado onde eu precisava de ir abre às nove da manhã durante o Ramadão. Cheguei dez minutos antes e, como é óbvio, tive de esperar quase até às dez para falar com o senhor que ia assinar os papéis que eu levava. Decidi esperar na rua e observar.

O facto de serem nove da manhã não costuma intimidar muito o sol, porque a essa hora já sou obrigado a usar manga curta. O calorzinho agradável que se fazia sentir e a minha modorra matinal encostaram-me à parede da esquina e fizeram-me espreguiçar. A rua ainda não estava muito movimentada, mas também raramente o está. Passavam poucos veículos, o que não significa que o trânsito é seguro: Peugeots 504 e 505 a caírem de podres, carrinhas Toyota, jipes variados, táxis (mais Peugeots), motas, bicicletas e dromedários atropelam-se numa espécie de desafio para descobrir quem conduz pior. Diria que também é da modorra, porque apesar de o tráfego ser desordenado até o sol se pôr, neste sítio é fácil ter-se modorra o dia inteiro. Enfim, só neste dia é que me apercebi do quão curioso é haver às vezes tão poucos carros na rua e mesmo assim ser perigoso andar na estrada.

Mas dizia eu que Peugeots, Toyotas e assim. E também pessoas. Algumas a irem para o trabalho, outras, mais jovens, vestidas de soldado a entrarem num quartel próximo, outras, mais jovens ainda, a irem para a escola. Passa por mim um grupo de miúdos vestidos com batas brancas, como se fossem pequenos médicos de mochila às costas. As mulheres, com a cabeça tapada. Os tuaregues também. Às vezes, as pessoas que passam mais perto de mim cumprimentam-me. "Salaam Alaykum". Nenhuma destas pessoas corre para lado nenhum: percebo a minha ingenuidade em ter vindo dez minutos mais cedo e a sorte que tenho em ser tão ingénuo assim.

O sol bate numa das paredes dos edifícios, duas no máximo, e não me deixa ter certezas acerca da sua cor: avermelhado ou acastanhado? Seja como for, é a cor dominante nas casas de Tamanrasset, creio eu que para não destoar. Troco a esquina por uma árvore grande e amodorro-me junto ao tronco pintado de branco na base, como todos os outros troncos de árvores grandes.

Em suma: os Peugeots, Toyotas, soldados e médicos pequeninos que talvez curem doenças pequeninas também, todos dourados pelo sol e acastanhados pelos edifícios. É da luz, creio, e do calor também. É uma imagem calma e tranquila, graças à cor e às pessoas: ninguém tem pressa, como se toda a gente estivesse a esperar comigo pelo senhor que assina papéis. Como se toda a gente tivesse a modorra que eu tenho, os soldados, os táxis e os dromedários. Por isso, movido pela simples cortesia e grato por me fazerem companhia enquanto espero, cumprimento também toda a gente que passa por mim.

Há imensos militares em Tamanrasset. É uma cidade muito militarizada porque serve de base para a vigilância e protecção das fronteiras com o Niger e com o Mali, e de toda região sul em geral: uma área tão vasta de areia e pedra que torna estranho - e interrogo-me acerca disso - o facto de a farda dos soldados ser em tons de verde.

29/09/2007

A aguardente

Assim de repente veio-me a vontade de escrever, eu que até estava a pensar escrever qualquer coisa amanhã, uma coisa assim gira sobre Tamanrasset, dessas que dão a conhecer um bocado desta realidade àqueles que não têm oportunidade de vir aqui ver como isto é e que a meu ver não perdem grande coisa porque isto não é nada de especial porque é um pardieiro, a não ser que venham uma semana para conhecer como o resto dos turistas europeus e isso chega porque não há muito mais para ver, paisagens e tal, mas ao fim de algum tempo cansa porque afinal de contas é o deserto e o deserto é famoso por ser grande e monótono e acaba por ser uma chatice ao fim de muito tempo.

Acho que me deu a vontade de escrever porque estava aqui na internet a falar para Portugal e para a vida que pus em pause (tuca) para vir para cá ganhar a vida e essas coisas que as pessoas crescidas fazem (agora já trabalho, sou crescido), e comecei a ouvir uma música que ouvia imenso quando trabalhava na margem sul do Tejo. Claro está que as memórias jorraram em catadupa sobre a minha cabeça pequenina e o resultado é a inundação deste texto, que não vou guardar em Word como os outros, que não irei reler, que será espontâneo, que irá destoar dos outros mas no fundo faz parte da experiência de estar déplacé aqui na Argélia e conviver vinte e quatro

A professora de língua portuguesa diz aos seus alunos:
- Num texto corrido, os números escrevem-se sempre por extenso.


horas por dia com a obra, com a cultura estranha que tanto deu a fazer a vários reis nossos, com o trabalho, com as saudades, com o calor (se vissem como estou agora), com a areia e o pó, com todas essas coisas que tornam o facto de estar no deserto numa coisa "gira".

A margem sul do Tejo é uma coisa onde eu vivia na altura em que o ministro Mário Lino decidiu dizer que a margem sul do Tejo era um deserto. Foi mais ou menos por essa altura que soube que viria para aqui, o que me rendeu comentários

- Vais sair de um deserto para ires para outro!

sem piada nenhuma. Quer dizer, na altura tinham piada mas agora deixaram de ter porque começo a ter saudades até da margem sul do Tejo.

No Lavradio, freguesia do concelho do Barreiro, existe um depósito gigante de gesso que forma um planalto com uma extensão enorme. Localmente, é conhecido como 'Montes da Lua', devido ao seu aspecto árido e inóspito. Cativa pela sua estranheza. Visitei os Montes da Lua várias vezes quando vivi por ali e pude ter uma perspectiva diferente do estuário do Tejo: vê-se o casario de Lisboa, o cristo-rei de Almada, a base aérea do Montijo, as pontes, a ilha do Rato, as fábricas do Barreiro. Das vezes que lá fui estava frio e um vento do caraças. Cativa, acreditem: é desolador, assustador, perturbador ver uma quantidade enorme de gesso mesmo à beira do nosso Tejo, mas cativa. Os U2, os Blasted Mechanism, o Cristiano Ronaldo e os actores do Filme da Treta pensam o mesmo, porque já lá fizeram sessões de fotografia-barra-filmagem.

Para mim os Montes da Lua eram o deserto da margem sul do Tejo e acho que gosto desse tipo de sítios em que uma pessoa se sente perdida e espantada. É isso: estava espantado. Gosto de coisas que ainda me espantam. Tamanrasset e o Saara espantam-me. Surpreendem-me. Já cá estou há quase dois meses e ainda há qualquer coisa que me surpreende, que estranho: acho isso fabuloso. Há qualquer coisa neste espanto que me faz ter vontade de conhecer e perceber os sítios, e é isso que me cativa. Isso acontece mais nos sítios feios e difíceis porque são esses que se têm que olhar com mais atenção para se compreender que todos os sítios têm o seu encanto. Atenção: eu disse encanto e não beleza.

Certa vez, em Lagos, estava à procura de um restaurante quando um rapaz com dois finos na mão me abordou em inglês oferecendo-me ajuda e uma das cervejas. Recusei a cerveja e aceitei a ajuda. Revelou-me a direcção para o restaurante que procurava e acompanhou-me. Chamava-se Jamie, tinha dezassete anos e era australiano. Estava a trabalhar em Lagos. Quando lhe perguntei porque razão um australiano tão novo tinha vindo para tão longe de casa, ele respondeu-me:
- Oh, but Lagos is the best, man!


Acho que serve tudo isto para dizer que tenho saudades de Portugal. Mais nada. Prometo que da próxima escrevo qualquer coisa gira sobre a Argélia, sobre Tamanrasset, sobre o deserto, qualquer coisa que contribua para dar a conhecer a vida aqui. Mas neste preciso momento - e se for necessário, apagarei este texto e negarei tudo -, só consigo escrever sobre o sítio onde estou.

22/09/2007

O gamadensímetro

Na construção de uma estrada, antes de se aplicar o vulgarmente chamado ‘alcatrão’, é costume aplicar-se uma camada de brita chamada ‘tout-venant’. Aqui, no sul da Argélia, não se aplica tout-venant mas sim ‘tuf’, um solo natural frequentemente encontrado nuns montes avermelhados no deserto. Depois de espalhado sobre a plataforma da estrada e regado, é compactado com cilindros. A compactação final, que deve obedecer a valores estipulados no projecto, é medida com um aparelho chamado gamadensímetro. Durante o funcionamento, este aparelho liberta radiações. Convém não se estar perto dele enquanto funciona, porque a presença de uma pessoa nas proximidades influencia os resultados e, segundo dizem alguns, as radiações libertadas podem provocar disfunções masculinas indesejadas. Pelo sim, pelo não, ninguém me apanha perto do gamadensímetro enquanto ele não terminar a leitura: no fundo, é um bocado como guardar o telemóvel no bolso de trás das calças.

Neste momento está a aplicar-se tuf. Periodicamente, um fiscal técnico de laboratório chamado Aissa vai até à obra para verificar com um gamadensímetro se a compactação está dentro dos valores devidos. Enquanto esperamos que o aparelho cuspa os resultados do ensaio, conversamos em francês. O tema mais frequente a seguir ao trabalho é a religião. Mais propriamente, as diferenças entre as nossas religiões. Como está a decorrer o Ramadão, este tema vem à baila mais vezes ainda.

O Aissa prepara o aparelho para o ensaio e eu aproveito a necessidade de me distanciar para ir até à carrinha buscar uma garrafa de água. Está a cinquenta metros de nós, perto do último ponto que analisámos. Caminho sobre o tuf compactado que se prolonga como uma passadeira até desaparecer em curva no cimo de um monte. Está um vento fortíssimo, que nos refresca ao mesmo tempo que nos enche de areia. De cada lado da estrada há colinas de areia e pedra a perder de vista onde pouca gente, incluindo os argelinos, se aventura. No cimo dos montes mais próximos voejam bandos de corvos que são atraídos pela água que misturamos no tuf: são silenciosos e não incomodam, mas saltam à vista por causa do contraste que fazem com a monotonia da paisagem. Chego à carrinha, pego na garrafa e regresso para junto do Aissa. Bebo um trago e ofereço-lhe água, sorrindo. Sei que ele vai recusar porque é Ramadão. Faz que não com o dedo e diz:
- Le Dieu.
Depois, pergunta-me se não faço Ramadão. Rio-me e respondo-lhe que não, dizendo que cada um de nós adora o mesmo deus de formas diferentes. O Aissa insiste na ideia de que eu devia fazer o Ramadão: segundo ele, quando morrermos, Deus irá ter em conta todas as rezas efectuadas e Ramadões cumpridos antes de nos decidir aptos para o Paraíso. Não sou religioso: talvez seja por isso que comentei que o Paraíso será ganho se agirmos em vida de acordo com certos valores, como a bondade, honestidade e honra, os três únicos valores que na altura consegui dizer em francês. O fiscal retorque que existe uma componente de veneração que não pode ser descurada. Algo que eu já sabia e que é responsável por eu não ser religioso. Não tenho paciência para missas, quanto mais passar um mês sem comer durante o dia.

O vento leva os corvos a pairar no ar sem se mexerem, levanta-me o cabelo e ameaça o boné do Aissa. Faço o Aissa notar que um deus bondoso não o obrigaria a estar ali ao calor com os lábios e os dentes cobertos de areia e pó trazidos pelo vento sem o deixar beber água, mas o homem objecta que o seu deus não o obriga a nada: os árabes só fazem o Ramadão se quiserem. A conversa estagna.

Examinamos o ecrã do gamadensímetro e encontramos um valor favorável, que o Aissa escreve numa folha de papel dobrada em oito. Pegamos no aparelho e avançamos mais cinquenta metros, indiferentes ao vento cada vez mais forte que já obrigou os corvos a pousar.

20/09/2007

As feras

A esta luz, reconheço que o sinal de perigo português análogo a estes não deixa de ser um bocadinho ridículo, embora ache que a ovelha seja um bocado exagerada. Até porque ainda não vi nenhuma.